Depois da dor, veio o silêncio. E depois do silêncio, veio o sopro.
Não era mais terra, barro, dor. Era névoa leve, branca, azulada, um caminho sem estrada, feito de lembrança e vento.
O cavalo, que em Bananal tombou ferido, agora caminhava entre dois mundos, num campo onde o tempo não pesa e a dor não morde mais.
Seu corpo não era mais feito de músculo e sangue, mas de brilho sutil, como se a alma tivesse aprendido a ser brisa. Cada passo que dava ecoava como tambor distante, como se o próprio universo o saudasse: “Chegaste, guardião… agora és espírito em forma de beleza.”
Não havia ferraduras. Seus cascos tocavam o chão de estrelas com leveza de oração. As árvores se curvavam, os pássaros silenciavam, e os rios espirituais refletiam sua imagem como se fosse lenda.
E ele lembrava… lembrava do carinho de uma criança, do cheiro da terra molhada após a chuva, do pôr do sol visto atrás das cercas, do frio na pele nas manhãs sem nome.
Mas lembrava também da dor. Do abandono. Do corte. Do medo.
E então, chorou. Sim, mesmo em espírito, o cavalo chorou. Lágrimas que não molhavam, mas purificavam.
Foi quando surgiram eles: os Velhos do Tempo, as almas ancestrais que cuidam dos esquecidos. Com suas mãos enrugadas de eternidade, os Pretos Velhos afagaram sua crina luminosa. E Maria Conga disse:
“Chora, meu fio… chora tudo o que ficou preso na carne. Porque agora, tu és livre. Livre pra correr onde a injustiça não te alcança, e onde o amor não tem fim.”
E o cavalo correu. Oh, como ele correu… Não para fugir, mas para abraçar o que lhe era de direito desde o início: a paz.
Hoje, ele galopa entre os campos do astral, levando nos olhos a doçura dos mansos e nos cascos a força dos que suportaram o impensável.
É guia de outros animais que chegam feridos. É consolo de espíritos que perderam a fé. É símbolo de que, mesmo quando a maldade vence por um instante, o amor sempre chega depois, e chega pra sempre.
Axé, cavalo que virou constelação. Que tua presença invisível nos lembre: até o mais humilde dos seres pode renascer em beleza quando o Céu decide curar com ternura.
Axé
Cássia Alves
📖 Créditos: Diário Espírita